quarta-feira, 20 de julho de 2011


DIA DO AMIGO

“Há muito se diz que quem encontrou um amigo encontrou um tesouro precioso”. São essas as primeiras palavras que dá início a uma das mais belas orações que li. Gabriel Chalita captara de maneira tão singela e tão profunda o tema que hoje me atento a discorrer. Prazeroso, mas dificultoso, uma vez que nos tempos hodiernos é inadmissível a aceitação de amizades sinceras, sem interesses, sem “segundas intenções.”
Como não posso ficar no meu simples:“ eu penso”, “eu acho”, ou num infundável: ”na minha opinião”; recorro-me a personagens que marcaram a história da literatura secular e sacra.
Revisitemos as mais belas histórias de amizade. Pra começar, falemos da obra de um afegão, Kalled Houseini , O Caçador de Pipas.  Composto por cenas simples que focam a infância de Amir e Hassan, como forma de ostentar sentimentos como ingenuidade e fidelidade tidas como extintas em nossa sociedade excêntrica, as primeiras páginas nos encantam com a personagem Hassan, pela sua fidelidade excepcional. É um arquétipo de relacionamento criado por uma sociedade desigual: um garoto rico, não popular, amigo de um outro, pobre, que passa por frequentes provas de fidelidade.
         O lance da obra é apresentar uma amizade inabalável, uma fidelidade imaculada, ainda que escancare as deficiências da reciprocidade. Amir só consegue ser recíproco a essa amizade, quando ele fora capaz de caçar a si mesmo. Quando ele se reconhece como fraco, covarde e desleal. Ao tentar “ unir as duas pontas de sua vida” ele se torna o Caçador de pipas, uma simbologia à humildade e redenção.
         “Há muito se diz que amizade verdadeira dura para sempre. Não tem aquelas tempestades da paixão nem a calmaria exagerada do descompromisso. É o meio termo. É a bonita sensação do estar perto e, de repente, poder se calar. Não exige tanto. Exige tudo.”
Nesse fragmento da oração, lancemo-nos ao mundo surreal da inesquecível obra de Saint Exupery. No livro, a raposa ensina ao Pequeno Príncipe a importante lição de que as coisas só ganham sentido quando se conhece a amizade. O Pequeno Príncipe compreende que apesar de o mundo ter milhares de rosas, a rosa de seu planeta era única, pois somente ela era mantenedora de seu amor, de seu afeto. A amizade é assim, exige tudo!
                      O processo de individuação cai por terra nessa obra, uma vez que aquele garoto, apesar de sua tenra idade compreende que para se tornar um ser, um  individuo, só é possível quando existe o outro. Não é possível ser único, se não for para alguém.
Em uma das lições da raposa, ela diz: “o essencial é invisível aos olhos”. A individualidade se faz nas pequenas coisas, nos detalhes que muitas vezes são esquecidos. É através do afeto direcionado à pessoa que faz com que ela se torne diferente das demais pessoas. Um jeito de sorrir, um pequeno defeito, ou mesmo uma mania.
Ainda nessa obra, o  Pequeno Príncipe divaga, “o que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar”.
Quando ganhamos um presente, ele carrega o sorriso de quem o deu, a expectativa no desembrulhar nos remete a tantos pensamentos... É triste vermos o mundo se lograr com os embrulhos. Os atraentes, os coloridos, os alegres , os... Mais lamentável é ainda a decepção de quando eles são abertos. Haverá mil pacotes coloridos, sedutores, mas haverá poucos que terão realmente um conteúdo significativo, marcante. Assim são as possíveis amizades que ao longo de nossa vida somos envolvidos.
Por que será que quando vemos alguém pensamos: puxa, como fui amigo dele e hoje nem nos falamos mais?  
O que torna a vida menos dramática são os verdadeiros amigos que encontramos neste deserto que vivemos. A miopia sentimental nos confunde por vezes, e  somos levados a uma cegueira total, em que só após uma grande decepção é que somos capazes de enxergar além dos possíveis olhares a que somos lançados em tempos de encantamento.

Chalita prossegue: “Talvez a amizade maior seja aquela em que um amigo é capaz de estar ao lado do outro nos momentos de glória e vibrar com essa glória; não ter inveja, não querer destruir o troféu conquistado. Aplaudir e se fazer presente, ser presente.”
Aqui, debruçaremos nas Sagradas escrituras, uma das mais belas lições de AMIZADE, encontramos a amizade entre Jônatas e Davi que era uma aliança de amor, um exemplo  que tem muito a nos ensinar sobre o real significado e importância da amizade verdadeira.
Em I Sm. 18.1 diz: ”Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma.” Esta passagem nos mostra que uma amizade verdadeira é estabelecida por um vínculo muito forte, o vínculo do amor  fraternal.                        
                              A amizade que nasceu no coração de Jônatas e Davi era algo tão profundo que levou Jônatas a arriscar-se em favor de seu amigo. Davi também correu riscos em virtude de sua amizade com Jônatas, ao acolher um descendente do rei Saul, o filho de Jônatas, Mefibosete, em seu palácio.
O como detectaremos os nossos verdadeiros amigos?
                       Amigo é aquele com quem podemos ser nós mesmos. Ser nós mesmos implica uma apresentação sem reservas e espontânea de si mesmo, sem o autocontrole exigido pelas regras da polidez. Li certa vez que amigo é aquele com quem se pode pensar alto.
                       Amizade em nossos dias, em muitos casos, significa se aproximar de alguém que pode oferecer algo. Quando não tem mais o que oferecer deixa de ser amigo e aquele que até então não era amigo mas agora tem algo a oferecer, passa a ser o amigo da vez. Salomão fala sobre isso de modo claro em pelo menos duas passagens de Provérbios: Pv. 19.4, 6“As riquezas multiplicam os amigos; mas, ao pobre, o seu próprio amigo o deixa... Ao generoso, muitos o adulam, e todos são amigos do que dá presentes”.
                    Que tipo de amigo você tem sido e que tipo de amigos você tem ao seu redor?
O fiel, como Hassan fora para Amim? O insubstituível como a rosa fora para o principezinho? Ou o Leal, como Davi fora para com Jônatas?
                 Que Deus faça de nós, amigos de verdade e assim também nos dê amigos com quem tenhamos uma real aliança de amor fraternal.
Finalizemos com as palavras de CHALITA:

Senhor, eu sei que a regra de ouro da amizade consiste em não fazer ao amigo aquilo que eu não gostaria que ele fizesse a mim. E eu Te peço que eu seja fiel a essa intenção. Que eu tenha poucos amigos, mas amigos que permaneçam para sempre. Não poderia ter muitos; não teria tempo para cuidar de todos, e de amigo a gente cuida, acolhe, ama.

Senhor, proteja os meus amigos. Que nessa linda jornada consigamos conviver em harmonia. Que nesse lindo espetáculo possamos subir juntos ao palco. Sem protagonista. Ou melhor, que todos sejam protagonistas e que todos percebam a importância de estar ali. No palco. Na vida.

Obrigada, Senhor, pelo dom de viver e conviver. Obrigada, Senhor, pelo dom de sentir e manifestar o meu sentimento. Obrigada, Senhor, pela capacidade de amar, que é abundante e sem fim.

Amém.