quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
VELHA INFANCIA
É incrível como ser criança é fácil. Nada parece confrontá-las. Brincam, dormem, pulam, choram, perdoam, amam. São tão inocentes e puras que às vezes nos perguntamos se fomos capazes de sê-las um dia. O tempo é um bicho faminto, um louco sem hora, é um deus apressado e confuso. Magnífico e poderoso tempo que nos rói a alma, nos torna velhos infames e pouco críticos. Os famosos e respeitáveis adultos.
Perguntei a uma querida professora, como tinha sido sua infância. Enviei-lhe um papel com as perguntas, que no dia seguinte veio preenchido ate as bordas. Desdobrei-o e comecei a ler. Em seguida, foi isso que saiu dos meus dedos:
“Há 39 anos, nasce uma menina em Teófilo Otoni. Nada de novo afinal, muita gente nasce todo dia, a toda hora, todo segundo, a todo vapor.
A menina foi morar numa chácara calma e pacata. A chácara em que passou parte de sua infância com seus oito irmãos brincando, pulando, sorrindo, perguntando, sonhando... Sendo criança.
Não havia o luxo da energia elétrica, nem água encanada, tão pouco TV. A menina descobria o mundo docilmente, de pouco a pouco, como de ser. Muito diferente desses tempos em que vivemos, tempos sujos que as crianças já vêm ao mundo sabendo, não há descobertas.
Uma de suas lembranças mais remotas, da velha e doce chácara, é de sua irmã passando roupa com um ferro cheio de brasas que se recusavam a acender, enquanto o feijão chiava na panela cansada e batida, surrada pelo tempo.
Além dessa, muitas outras lembranças vieram em um turbilhão que desabaram em lagrimas amargas quando um carro de mudança encostava. Tudo foi tão rápido que ela nem pode dizer adeus. Nunca mais viu a chácara que iluminara sua infância.
De repente, a menina se viu em uma realidade totalmente diferente: o ‘Bi! Bi!’ dos carros, o dançar de pés ora bem calçados, ora apressados nas ruas asfaltadas; o conjunto que forma a cidade grande. Foi morar numa casa onde tinha lâmpada que acendia! Nossa! Água quente saindo do chuveiro? Hilariante. Por um momento nem sentiu saudades da vida mansa do interior. Queria morar ali para sempre.
Entrou para a escola. A magia do conhecimento a envolveu fantasticamente. Não queria sair dali até que... Bum! O que era aquilo? Todo mundo de repente congelou na sala. A professora os mandava ficar calados e quietos. Homens armados até os dentes vistoriavam toda a classe. Sentiu pânico, um horror que lhe fez tremer até a espinha. Queria urgentemente voltar para sua chácara, para seu aconchego. Deu graças a Deus quando a ditadura acabou.
A menina e os irmãos amavam a forma como sua mãe criava-os sem fazer distinção. A tarde, o pai sempre lhes trazia quadrinhos que liam deleitosamente, enquanto um conto de fadas ou uma musica saia do toca-discos. A menina sentia emergir de dentro dela uma professora brilhante.
Os anos foram se passando, a menina foi crescendo. Morreu a criança e nasceu o adulto. Um dia talvez, ela retorne em sua primeira morada e, debaixo das carinhosas e aconchegantes sombras das arvores ela ensinará as suas filhas, velhas e inocentes brincadeiras de seu tempo. Enquanto o tempo modela tudo e todos de repente.
‘Essa menina é a nossa magnífica professora de historia Edlene.’”
Enquanto eu lia o que havia escrito, meus olhos não se limitavam em derramar lagrimas. Eles viam num tempo distante, uma linda menininha brincando de ser criança.
Lorena R. Lima 8° Ano 05 Matutino
P.S.
No último bimestre de 2011, embarcamos no projeto "Se eu me lembro bem", nossos alunos foram impulsionados a produzirem textos memorialísticos, dentro desse projeto surgiu o tema: TEMPO DE ESCOLA, poderia entrevistar qualquer pessoa. As perguntas e respostas se tornaram enredos belíssimos, veja um exemplo deles. Se curtiu, comente! Incentive nossos alunos! Abraços
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